Embaixadores exploram parcerias econômicas no Recife Imprimir E-mail
Escrito por Alexandre Rocha | Agência de Notícias Brasil-Árabe   
Sex, 02 de Outubro de 2015 08:27

Recife – O Conselho dos Embaixadores Árabes no Brasil começou a explorar oportunidades de comércio e investimentos entre os países do Oriente Médio e Norte da África e o estado de Pernambuco. Os diplomatas se reuniram nesta quinta-feira (01) no Recife com o governador Paulo Câmara (PSB) e com o vice-prefeito da capital, Luciano Siqueira (PCdoB).

“É uma satisfação recebê-los e saber que estão interessados em conhecer Pernambuco e fazer parcerias econômicas”, disse Câmara, após a reunião com os embaixadores. “Espero que eles possam ser também embaixadores de Pernambuco em seus países”, acrescentou. Os diplomatas cumprem intensa agenda no estado até sábado.

Na seara dos investimentos, o governador ressaltou como atrativas para o capital externo áreas como as de petróleo e gás e de energia eólica. Aos embaixadores, ele citou alguns destaques da economia local, como a nova fábrica da Jeep, as indústrias de alimentos e bebidas, o complexo industrial do Porto de Suape, que conta com empresas de siderurgia e construção naval, e no que diz repeito ao comércio, Câmara afirmou que o estado busca fortalecer as exportações de frutas produzidas no Vale do Rio São Francisco.

“Há muitas oportunidades e eu gostaria de contar com o apoio dos senhores na divulgação do potencial econômico e turístico do estado”, declarou o governador.

O decano do conselho e embaixador da Palestina, Ibrahim Alzeben, disse que a corrente de comércio entre os países árabes e Pernambuco é cerca de US$ 300 milhões por ano e que o valor é pequeno se comparado ao total do comércio entre o Brasil e as nações do Oriente Médio e Norte da África, que gira em torno de US$ 25 bilhões. “É por isso que estamos aqui”, afirmou.

O presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Marcelo Sallum, que integra a delegação, disse que um dos objetivos da visita é mostrar as oportunidades do estado aos embaixadores e permitir que empresários locais conversem diretamente com os diplomatas. Nesta sexta-feira, o grupo se reunirá com 20 empresas de diferentes setores e com dez companhias da área de turismo.

Segundo ele, a participação de apenas 1,5% de Pernambuco no comércio do Brasil com os países árabes “mostra que nós temos oportunidades muito grandes a serem trabalhadas”. “Acreditamos muito na parceria entre o Brasil e os países árabes”, destacou o executivo.

Sallum citou, porém, dois temas que, em sua avaliação, o governo brasileiro precisa resolver. Um deles é dar andamento aos acordos comerciais em negociação entre o Mercosul e nações árabes ainda não concluídos, e o outro é assinatura de acordos com países árabes para evitar a bitributação do Imposto de Renda, o que desonera os negócios. Ele pediu ao governador e ao vice-prefeito apoio nestas duas questões junto ao governo federal, e ressaltou que a facilitação do comércio e dos investimentos entre o Brasil e o mundo árabe pode ajudar no processo de recuperação da economia brasileira.

O presidente da Câmara Árabe falou também da 4ª Cúpula América do Sul-Países Árabes (Aspa), que será realizada em novembro, na Arábia Saudita, e terá com temas centrais transportes e logística. “Como facilitar o acesso de produtos e serviços entre os países árabes e a América do Sul?”, questionou ele.

Nesse sentido, o embaixador da Mauritânia, Ould Kbed, disse que seu país é “vizinho” de Pernambuco do outro lado do Atlântico, na costa oeste da África. De acordo com ele, a distância pode ser percorrida em quatro horas de voo ou em quatro dias em navio cargueiro. “Mas do Recife o produto vai para o Porto de Santos (em São Paulo), depois para a Europa e depois para a Mauritânia, o que leva 60 dias”, ressaltou. Ele defendeu a criação de uma linha marítima direta entre o Brasil e o Norte da África.

Parcerias

Vários diplomatas apresentaram ideias para aumentar o relacionamento de seus países com Pernambuco. O embaixador da Tunísia, Sabri Bachtobji, por exemplo, sugeriu a nomeação de cônsules honorários de nações árabes no Recife, além de um maior diálogo entre os órgãos do governo do estado com as embaixadas. “Uma relação duradoura tem que ser organizada sobre instituições”, afirmou. Ele defende também o uso do programa Ciência sem Fronteiras, do governo federal, que financia intercâmbios universitários, para custear o estudo de brasileiros em universidades árabes.

Nessa área, a secretária de Ciência e Tecnologia do estado, Lúcia Carvalho Pinto de Melo, que participou da reunião, propôs a criação de parcerias em sua área de atuação. “Os países árabes têm crescido muito na produção de conhecimento e Pernambuco é também importante nessa área”, afirmou. Ela citou setores em que existem “convergências” entre as duas partes, como os de petróleo e gás e de energias renováveis.

O embaixador do Catar, Mohammed Al-Hayki, aproveitou para dizer que em novembro o ministro das Relações Exteriores de seu país virá ao Brasil e está prevista a negociação de um acordo na área de gás, fruto de uma viagem que a presidente Dilma Rousseff fez à nação do Golfo ainda em seu primeiro mandato.

O embaixador do Sudão, Ahmed Elsiddig, por sua vez, lembrou que seu país já tem uma boa relação com o Brasil na área agrícola, especialmente na produção de algodão e açúcar, mas tem interesse em ampliar o foco de cooperação com os brasileiros, principalmente na área de energia eólica.

Causa palestina

Já o embaixador de Omã, Khalid Al Jaradi, falou de temas mais políticos. Ele pediu o apoio de “países amigos” para desvincular o Islã do terrorismo. “O Islã e qualquer outra religião não têm ligação com o terrorismo”, declarou. Para ele, os conflitos existentes hoje no Oriente Médio e Norte da África vão terminar. “É um período de passagem que os países árabes conseguirão ultrapassar”, destacou.

Ele fez ainda uma defesa enfática da independência da Palestina, um dia depois da bandeira do país ter sido hasteada na sede das Nações Unidas, em Nova York. “Temos esperança que cesse o sofrimento do povo palestino”, disse Jaradi.

Quem ficou especialmente entusiasmado com o tema foi o vice-prefeito. “Desde muito jovem eu acompanho a história árabe e como militante político eu compartilho com meus companheiros as lutas em solidariedade ao povo palestino”, afirmou Siqueira. Ele contou que viu “com muita emoção” o hasteamento da bandeira na ONU. Alzeben lhe deu de presente um broche com a flâmula palestina que trazia na lapela.

Para Siqueira, a visita dos embaixadores é importante porque, além da presença árabe maciça no Brasil, ela dá impulso às relações com as nações do Oriente Médio e Norte da África. “Assumimos o compromisso de contribuir com o que for possível para se examinar todas as possibilidades de cooperação”, declarou.

Alzeben sugeriu ao vice-prefeito algumas ações, como a assinatura de acordos de cidades irmãs entre o Recife e municípios árabes e a disponibilização de um espaço na capital para a realização de exposições e outros eventos culturais organizados pelas embaixadas.

O decano destacou que Pernambuco e os países árabes “têm muito a oferecer e a receber”, e que dada a vocação tanto do estado quanto das nações do Oriente Médio e Norte da África como destinos turísticos, ele acredita que esta é a área em que a cooperação pode andar mais rápido.

Participaram das reuniões também os embaixadores da Líbia, Khalid Dahan, da Liga Árabe, Nacer Alem, o encarregado de negócios da embaixada do Marrocos, Mohamed Boulmani, e o diretor-geral da Câmara Árabe, Michel Alaby.